A maioria dos brasileiros é contra o País privilegiar os Estados Unidos nas suas relações internacionais, aponta o Datafolha

FONTE: O SUL

Dois em cada três brasileiros discordam de que o Brasil deva dar preferência aos Estados Unidos nas suas relações internacionais, segundo pesquisa do Datafolha. O alinhamento aos EUA é uma das principais diretrizes diplomáticas do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seu futuro chanceler, Ernesto Araújo.

Segundo o levantamento, para o qual foram ouvidas 2.077 pessoas em 130 municípios do Brasil nos dias 18 e 19 de dezembro, 66% dizem discordar da ideia de privilegiar os EUA em detrimento dos demais países. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para ambas as direções.

Entre os 29% que afirmam concordar com a ideia, metade (15% do total, portanto) declara estar totalmente de acordo, e 14% do total dizem compactuar apenas parcialmente com a prerrogativa. Dos consultados, 1% não concorda nem discorda e 4% não souberam opinar sobre o tema.

Os mais refratários ao alinhamento são as mulheres (69% são contra, enquanto entre os homens a rejeição é de 62%) e aqueles com ensino superior (77% se opõem) e renda acima de cinco salários mínimos (72%).

Mas a oposição é majoritária em todas as faixas etárias, de renda e de escolaridade, independentemente de região ou gênero, sendo mais discreta (58%) entre jovens de 16 a 24 anos, pessoas acima de 60 e indivíduos que só cursaram o ensino fundamental.

O único grupo que se mostra a favor (53%) do alinhamento preferencial é o daqueles que se declaram eleitores do PSL, o partido do novo presidente. Mesmo entre os que votaram em Bolsonaro, apenas 35% estão de acordo com a ideia.

Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás da China – terceiro, se incluída a União Europeia como bloco no ranking –, com 12% das exportações brasileiras e 15,6% das importações. Mas a balança ficou ligeiramente deficitária nos primeiros 11 meses do ano, segundo o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, enquanto o resultado com China, UE, Mercosul e Oriente Médio é superavitário.

Em novembro, Eduardo Bolsonaro, filho do presidente eleito, foi a Washington para se reunir com integrantes do governo de Donald Trump. Chegou a envergar um boné da campanha do republicano à reeleição em 2020, algo pouco protocolar na relação entre países, que deve se sobrepor àquela entre seus líderes.

Depois, John Bolton, conselheiro do presidente americano para Segurança Nacional, veio ao Brasil e foi recebido com uma farta mesa de café da manhã por Bolsonaro. Dias depois, o futuro chanceler Araújo declarou que o céu era o limite para as relações entre os dois países.

Mas, embora a Casa Branca de Trump devolva com elogios os gestos de Bolsonaro e sua equipe, a margem para melhorar as relações é pequena e passa por outros cálculos. Brasil e EUA, desde a retomada da democracia, já cultivam uma relação bem engrenada, ainda que não calorosa.

A Câmara de maioria democrata que assumirá nos EUA no início do ano não aprovaria um tratado de livre comércio com o Brasil, que dificilmente seria proposto por Trump, cujo histórico protecionista trai o ideário republicano. Mesmo no cenário otimista, dois anos de mandato de Trump e quatro de Bolsonaro seriam insuficientes para a negociação.

Fica pouco claro, então, o que o Brasil teria a ganhar. Em termos geopolíticos, por exemplo, é improvável que os EUA passem a defender um assento permanente para o Brasil no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas), um pleito de seus antecessores que Bolsonaro tampouco deve abraçar.

Por outro lado, tentativas de imitar o americano, como as declarações recentes do eleito e de seu chanceler sobre deixar o Acordo de Paris sobre o clima e o novo tratado da ONU sobre migrações, além do Conselho de Direitos Humanos, desagradam a outros aliados na Europa, na América Latina e até mesmo a China.

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