Estiagem assola região Sul do Estado

FONTE CORREIO DO POVO//A seca assola a região Sul do Estado desde novembro e dificulta a vida de muitas famílias, principalmente na zona rural. No Rio Grande do Sul, 24 municípios já decretaram emergência em função da estiagem deste período, sendo 17 delas na área mais atingida. Conforme o coordenador da Defesa Civil da Região Sul, tenente Charles Luis Rosa da Silveira, seis cidades tiveram a situação homologada pelo Estado e reconhecida pela União e duas foram homologadas. Quatro estão encaminhando documentos para homologação e cinco estão preenchendo os dados no Sistema de Informações sobre Desastres.

A Defesa Civil vem distribuindo bolsas de vinil com capacidade de 4,5 mil litros para transporte de água. Os maquinários, como quatro caminhões, duas retroescavadeiras e duas escavadeiras hidráulicas, fazem rodízio entre os municípios a cada oito dias. Somente na região, 10.938 pessoas estão com problemas no abastecimento, e os prejuízos, apenas na agricultura, ultrapassam R$ 551 milhões.

Em Arroio do Padre, as chuvas que caíram na semana passada e no Carnaval auxiliaram as plantas, mas, conforme a extensionista da Emater, Paula da Fonseca, o estrago já foi feito. “Não tem mais recuperação, o milho teve perda de 70%. No caso da soja, com perda de 60%, pegou a floração e a fase de enchimento dos grãos. Já na plantação de fumo e na bacia leiteira, 30% foi perdido em cada.”

No município de 2,9 mil habitantes, os prejuízos chegam a R$ 9 milhões. Desde dezembro, 15 famílias recebem água uma vez por semana de caminhão-pipa da prefeitura. “A nossa extensão é de 20 quilômetros, então às vezes chove em uma parte da cidade e não em outra”, explica. São 500 famílias atingidas pela estiagem. Algumas têm cacimba própria, outras têm equipamento de irrigação e não há como irrigar pela falta d’água. O recurso viaja de Pelotas para abastecer a cidade.

O agricultor Charles Wazhholz conta que para a sua família tem água, mas o uso é com muita parcimônia. “O banho é rápido. A água que lava a roupa que acumula é a mesma para lavar o chão”, exemplifica. Ele mora em uma propriedade de 20 hectares no interior do município, junto com os pais e o avô. Planta fumo, tomate e milho, além de cultivar pastagem para as 11 vacas leiteiras.

Pai de Charles, Valdir Wazhholz relata que a seca vem desde de dezembro e que, em janeiro, choveu na propriedade 32 milímetros. “Para a plantação, usamos a água do açude, que está secando, então tem que ser racionada. Utilizamos o básico na irrigação somente para manter”, lamenta. Mesmo assim, as perdas já chegam a 70% no tomate, 50% no fumo e 70% no leite. “Faltam pastagem e ração para os animais. O milho plantamos em dezembro e não cresceu. Ainda temos um financiamento anual de um trator que teremos que renegociar.”

A poucos quilômetros da propriedade, mora o agricultor Timóteo Fischer, 34 anos, com a esposa, Francine, e os dois filhos. Ele conta que, para o dia a dia, a prefeitura leva água até a moradia. “Eles trazem conforme pedimos. Na última semana foram 2 mil litros”, relata. A família planta milho, que teve mais de 40% de perda, abóbora, batata-doce e soja, que não se formou.

A economia de água é até para higiene pessoal. “Meu filho mais velho sempre reclama de tomar banho na banheira do menor. Aqueço água e é um balde para cada um”, conta Fischer. Segundo ele, a roupa da família é lavada uma vez por semana, e a água para beber e cozinhar vem da casa do sogro do agricultor, pois a que recebem do município é clara, mas tem gosto ruim. Fischer diz que enfrentar seca no verão é normal, mas não como em 2018. A família tem oito animais de corte, mas dois tiveram que ir pastar em outra propriedade. O cachorro, o gato, o coelho e a galinha precisam tomar água no açude do vizinho.

Cristal foi a primeira a assinar decreto

A cidade de Cristal foi a primeira a decretar situação de emergência. Em janeiro, por exemplo, quando era para ter sido registrada média de 130 milímetros de chuva, o volume foi de apenas 27 mm. O rio Camaquã, que cruza o município, registrou nível médio de 6,5 metros de profundidade nos últimos três anos. No dia 23 deste mês, estava com 48 centímetros.

Em mais de cem propriedades no interior do município, foram realizadas escavações, limpezas de cacimbas e transporte de água. Em fevereiro, um poço artesiano que abastecia pouco mais de 20 famílias secou. Elas passaram a receber água transportada pela Corsan. Os prejuízos na cidade de pouco mais de 7,8 mil habitantes chegam a R$ 36 milhões. A produção de leite caiu pela metade e, na soja, mais de 60% da safra foi perdida. Também foram registrados prejuízos nas plantações de tabaco, arroz e milho com perda quase total. A agricultura familiar também contabiliza perdas, pois é muito dependente do milho. A produção de leite caiu pela metade.

O agricultor José Carlos Krüguer, 54 anos, mora com a esposa Rossiara Verli e a filha em uma propriedade na localidade de Paraíso, onde planta milho, fumo, feijão, batatas e cria peixe. A seca se instalou no local em novembro do ano passado e, com isso, o agricultor perdeu toda a plantação de milho em aproximadamente 10 hectares. “Verdeou, mas não deu espiga. No fumo, a metade da plantação foi afetada. Foi uma perda muito grande. Nesta época, nunca passei por seca igual”, lamenta Krüguer. O agricultor lembra da seca registrada no verão de 1988. “Há 30 anos, tivemos uma seca forte, mas não foi por tanto tempo. Agora chegou a faltar água. Faz um mês que terminou o poço artesiano”, conta.

Krüguer relata que, quando falta água, liga para o município para que a propriedade seja abastecida. “Uma vez trouxeram 4 mil litros para o poço, que é utilizado por 17 residências. Todos os dias se abre o registro por uma hora, depois fica fechado”, confirma. As famílias usam uma caixa d’água coletiva de 10 mil litros que se destina ao básico, como o banho dos moradores da área. Para os animais, como porco, galinha, pato e vacas, e outras necessidades como descarga, por exemplo, é utilizada a água de um açude.

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