O Facebook cedeu informações pessoais sobre usuários da rede social para fabricantes de telefones celulares e outros produtos eletrônicos

FONTE O SUL//Quando o Facebook procurava se tornar o serviço dominante de rede social no mundo, fechou acordos que permitiam que fabricantes de celulares e outros aparelhos obtivessem acesso a vastas quantidades de informações pessoais sobre seus usuários.

Esse compartilhamento de dados envolveu pelo menos 60 fabricantes de eletrônicos (Amazon, Apple, BlackBerry, Microsoft, Samsung, dentre outros) nos últimos dez anos. O processo começou antes que aplicativos do Facebook estivessem amplamente disponíveis em smartphones, disseram dirigentes da empresa.

Os acordos, a maioria dos quais continua em vigor, permitiam que o Facebook expandisse seu alcance e que os fabricantes de aparelhos oferecessem aos seus clientes recursos populares da rede social, como o serviço de mensagens, botões de “like”, e agendas de contatos.

Mas as parcerias, cujo escopo não havia sido reportado anteriormente, geram preocupações sobre a proteção da privacidade dos usuários pela empresa e quanto ao seu cumprimento de um acordo que a companhia assinou com a FTC (Comissão Federal do Comércio, na sigla em português) dos Estados Unidos em 2011.

O Facebook permitiu que os fabricantes de aparelhos tivessem acesso a dados sobre os amigos de seus usuários sem o consentimento explícito destes, mesmo depois de ter declarado que essas informações não seriam mais compartilhadas com terceiros. Alguns fabricantes de aparelhos obtiveram o direito de obter informações pessoais mesmo sobre os amigos de usuários que acreditavam ter bloqueado qualquer compartilhamento.

A empresa rejeitou as alegações do jornal e disse que tais informações são rigidamente controladas e amplamente sujeitas a consentimento dos usuários. Está, porém, sob vigilância muito mais intensa de legisladores e autoridades regulatórias desde que surgiu a notícia, em março, de que uma empresa de consultoria política, a Cambridge Analytica, utilizou indevidamente informações privadas sobre dezenas de milhões de usuários da rede.

Alegações

Em meio ao escândalo causado pela notícia, os líderes do Facebook declararam que o tipo de acesso explorado pela Cambridge em 2014 havia sido bloqueado já no ano seguinte, quando a empresa proibiu desenvolvedores de aplicativos de recolher informações sobre os amigos de seus usuários. Mas a empresa não informou que os fabricantes de celulares, tablets e outros aparelhos estavam isentos dessas restrições.

“Mesmo que você acredite que o Facebook ou o fabricante do aparelho é confiável, o problema é que, à medida que mais e mais dados são recolhidos pelo aparelho – e se tornam acessíveis a apps instalados no aparelho -, riscos graves são criados, para a segurança e privacidade”, disse Serge Egelman, que pesquisa sobre questões de proteção da privacidade na Universidade da Califórnia.

Em entrevistas, dirigentes do Facebook defenderam o compartilhamento de dados como compatível com as normas de privacidade da empresa, com o acordo entre ela e a FTC, e com as garantias que foram oferecidas aos usuários. Eles disseram que essas parcerias são regidas por contratos que limitam severamente o uso dos dados, entre os quais quaisquer dados armazenados nos servidores de parceiros.

Os executivos acrescentaram que não conheciam qualquer caso de uso indevido de informações. A empresa considera seus parceiros fabricantes do aparelho como extensões do Facebook, servindo aos mais de dois bilhões de usuários da rede social, declararam os executivos.

“Essas parceiras funcionam de modo muito diferente daquele pelo qual os desenvolvedores de apps trabalham em nossa plataforma”, disse Ime Archibong, vice-presidente do Facebook. Ao contrário dos desenvolvedores que oferecem jogos e serviços no Facebook, os parceiros fabricantes de aparelhos da empresa só podem usar dados do Facebook para oferecer versões da “experiência Facebook”, frisaram os dirigentes.

Alguns dos parceiros fabricantes de aparelhos podem obter dados sobre o status de relacionamento, preferências políticas e compromissos sociais dos usuários, entre outros dados. Testes conduzidos pelo The New York Times demonstraram que os fabricantes de aparelhos solicitavam e recebiam dados da mesma maneira que outros parceiros externos do Facebook.

Em entrevistas, diversos engenheiros de software e especialistas em segurança que trabalharam para o Facebook disseram que a capacidade de contornar as restrições ao compartilhamento de dados era uma surpresa para eles.

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