O número de jovens que não estudam, não trabalham e nem procuram emprego triplicou no Brasil desde o início da crise econômica

O desalento, condição em que desempregados desistem de buscar uma vaga, é maior entre os jovens, que enfrentam taxa de desemprego mais alta que a média, mas cresceu especialmente entre pessoas como Vitória. O número de jovens que não estudam, não trabalham e nem procuram emprego triplicou desde o início da crise econômica, há quatro anos. Depois do mínimo histórico em meados de 2014, os “nem-nem-nem” saltaram de 445 mil para quase 1,4 milhão de pessoas de 15 a 29 anos em junho deste ano. O levantamento foi feito pela consultoria IDados, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do IBGE. As informações são do jornal O Globo.

Carlos Corseuil, pesquisador do Ipea que estuda o tema, lembra que, historicamente, os jovens são os primeiros a serem demitidos em crises econômicas devido à pouca experiência. E têm mais dificuldades de achar uma vaga. O pesquisador teme pelo futuro desses jovens. Quanto mais tempo ficam fora do mercado de trabalho e da educação formal, mais terão seu capital humano depreciado, dificultando a inserção profissional e comprometendo sua renda. Ruim também para a economia do país, que abre mão do que deveria ser a principal força de trabalho para sustentar crescimento econômico.

“São brasileiros que talvez nunca atingirão seu pico de produtividade, que geralmente ocorre entre os 35 e 40 anos de idade”, diz o economista do Ipea.

Para Bruno Ottoni, pesquisador do IDados, o alto desemprego desestimula a procura: “No ano passado tivemos crescimento econômico, mas ainda estamos saindo da crise em um ritmo lento, com pouca geração de empregos.”

No segundo trimestre de 2018, a taxa de desemprego no grupo de 18 a 24 anos estava em 26,6% – mais que o dobro da média geral do país no mesmo período (12,4%). Isso ajuda a explicar porque muitos jovens que desistiram de procurar emprego não avançaram na escola além do ensino médio, observa a economista do Ipea Maria Andréia Parente: “Muitos deles usavam os rendimentos para pagar os estudos. Sem emprego, param de estudar. O efeito seguinte, diante da dificuldade de se reinserir, é parar de procurar trabalho, já que boa parte ainda não é chefe de família.”

Para os que já têm a responsabilidade de manter uma casa, outros fatores contribuem para o desalento, como a falta de creches. Depois de muitas tentativas frustradas de arrumar emprego, Leonardo Menezes, de 24 anos, decidiu ficar em casa há dois meses, quando sua mulher conseguiu um trabalho como promotora de vendas, depois de também ficar muito tempo parada. Como não encontram vaga em creche pública para o filho Heitor, de 3 anos, é ele quem cuida da criança. É uma maneira de ajudar a mulher a manter a única renda da família, que mora em Vargem Grande, com mais três familiares. A situação financeira sempre foi um empecilho para ele fazer um curso superior.

“Parei de procurar emprego porque não conseguimos creche, e o Heitor ainda é muito pequeno. Mas não mudou muita coisa porque eu já estava há dois anos sem conseguir trabalho. Isso dá uma desanimada significativa. Sempre vai ter alguém com algo a mais no currículo”, conta o jovem, que terminou o ensino médio há seis anos e só tem experiência até agora como estoquista.

As consequências dessa dinâmica vão além da economia, ressalta Daniel Barros, consultor de políticas públicas e autor do livro “País mal educado”. Ele aponta que apenas 52% dos brasileiros de 19 anos terminaram o ensino médio. Muitos abandonam a escola. Outros sequer se matriculam.

“Temos aí um grave problema de cidadania. São pessoas que terão dificuldades de tomar decisões corretas. Além disso, como terão menos oportunidades, ficarão mais suscetíveis à criminalidade, como indicam diversos estudos. A educação precisa ser uma agenda prioritária”, defende o especialista.

Muitos jovens param de estudar para trabalhar, mas, sem instrução, as dificuldades para conseguir trabalho aumentam. A baixa qualidade do ensino também é preocupante. Priscila Cruz, presidente executiva do Todos Pela Educação, observa que avaliações internacionais mostram que os alunos brasileiros classificados entre os 10% melhores têm o mesmo conhecimento dos 10% piores do Vietnã: “O jovem que não aprende terá ainda mais dificuldades de conseguir emprego. A maior parte das seleções exige prova, preenchimento de ficha, envio de redações. Restará o mercado informal, que é muito volátil e instável.”

Fonte: O Sul

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