Advogada diz que foi abusada por João de Deus na presença do pai

FONTE: O SUL

A advogada Camila Correia Ribeiro disse ao programa Fantástico, da TV Globo, que foi abusada por João de Deus durante um atendimento espiritual em Abadiânia (GO). Segundo ela, o crime ocorreu em 2008, em uma sala, e seu pai estava presente, mas não pôde ajudá-la porque o médium pediu que ele virasse de costas, ficasse com os olhos fechados e rezasse.

O caso chegou a tramitar na Justiça, mas o líder espiritual foi absolvido. João de Deus foi foi preso no domingo (16), após se entregar à polícia. Ele nega todas as acusações de abuso sexual. Veja abaixo o relato de Camila e do pai, Augustinho Bento Ribeiro:

Camila: Meu nome é Camila. Sou de Belo Horizonte, fui até Abadiânia porque eu tinha na época a síndrome do pânico. Eu tinha 16 anos. Eu fui com fé, fui eu e minha família. E ele [João de Deus] falou que o meu caso era grave, que eu estava quase morrendo. Que ele precisava me atender na sala dele, que ele ia me curar. Quando ele abriu a porta, ele falou assim: “O senhor vai entrar com ela?”. Meu pai falou: “Vou, vou entrar”.

Augustinho: Ele falou assim, “ó, pai, vira de costas, faça as suas orações”. O tempo todo ele falava para mim, “pai não abra os olhos”. Sim, estava confiando… e só fazendo as minhas orações.

Camila: Falou comigo que eu ia ser curada. Que era para eu rezar. Eu fiz isso e ele começou a passar a mão em mim. Passou no meu peito, na minha vagina, no meu bumbum. E eu estava confusa, sabe, eu não estava entendendo. Eu chorava muito. E ele falou assim: “Calma, isso faz parte do tratamento, isso faz parte da cura”.

Augustinho: Nela chorar, eu pensava que ela estava recebendo uma cura. Eu nunca podia imaginar que estava na mão de um bandido.

Camila: Quando ele pegou minha mão e colocou nele, eu vi que tinha uma coisa errada, porque que ele tava fazendo aquilo? Eu não sabia. [Ele colocou minha mão] no órgão dele. Eu não conseguia falar… e não conseguia mexer, eu não… eu não conseguia falar nada. Não sei o porquê. [Meu pai] tava perto, muito perto, sabe?

Augustinho: Do meu lado e eu não pude fazer nada… É muito triste, é muito triste.

Camila: E quando cheguei em Belo Horizonte… eu ia o tempo todo no banheiro lavar a mão, esfregava, esfregava, eu tinha nojo. Coloquei fogo no meu vestido, na calcinha que eu tava vestida. Foi a hora que a minha mãe veio perguntar por que que eu tinha feito aquilo. Contei pra ela tudo que aconteceu. Minha mãe ficou arrasada. Contou para o meu pai.

Augustinho: Aí eu entrei em desespero. Minha filha do meu lado e eu não pude salvar ela? Foi onde que eu procurei uma delegacia no dia seguinte.

Camila: E fizemos uma denúncia contra ele.

Camila foi uma das primeiras mulheres que procuraram a Justiça para denunciar o médium por abusos, em 2008. Antes disso, outra jovem, de 16 anos, também de Minas Gerais, denunciou o médium, em 1980. Ela afirmou que foi assediada enquanto passava por atendimento no Centro Dom Inácio de Loyola. Ela desistiu de levar o caso adiante, mas Camila foi até o fim.

Somente cinco anos depois da denúncia, em 2013, é que saiu a decisão da Justiça, absolvendo João de Deus da acusação. O processo foi arquivado.

Camila: Eu fui ler a sentença agora há pouco tempo depois que toda a notícia apareceu. E eu fiquei como errada ainda, sabe? Dez anos! Ele ficou fazendo isso a mesma coisa. Dez anos!

Quem julgou o caso foi a juíza Rosângela Rodrigues Santos. Ela entendeu, na época, que o médium não enganou Camila. Alegou ainda que o pai estava lá para ampará-la e poderia ter reagido. Por isso, absolveu João de Deus do crime de violação sexual mediante fraude.

O Ministério Público do Estado de Goiás recorreu da decisão, mas o relator do caso levantou dúvidas sobre o depoimento de Camila, e João de Deus foi absolvido novamente, desta vez por “falta de provas”.

O magistrado que julgou o caso em segunda instância alegou que Camila tinha síndrome do pânico, que a doença causa crises súbitas e que os ataques deixam a pessoa incapacitada e com uma condição mental em que ela não consegue diferenciar fantasia de realidade.

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